O tema da fraude com inteligência artificial no Brasil tem se concentrado especialmente em categorias como deepfake, prova de vida, foto sintética e vídeo gerado. Trata-se de uma preocupação legítima, à qual a indústria de verificação de identidade tem respondido com uma evidente corrida tecnológica.
Contudo, um detalhe nas declarações de quem combate a fraude em escala no país merece mais atenção do que tem recebido. Em entrevista ao Finsiders Brasil durante a Rio Innovation Week 2026, a CTO da Neon, Fabiola Marchiori, descreveu a evolução das contas laranja de um modo que reposiciona todo o problema.
Se no passado essas contas vinham com documentação falsa e podiam ser bloqueadas por algum nível de tecnologia, hoje tudo é real, desde o comprovante de residência até a pessoa e a foto. A conta existe de verdade; a diferença é que ela está a serviço de uma intenção criminosa, muitas vezes viabilizada por meio de venda, aluguel ou coação.
Esse cenário muda a pergunta que a esteira de defesa precisa responder, deixando de ser “esse documento é falso?” para se tornar “essa identidade verdadeira está a serviço de quem?”. E essa segunda pergunta pertence a outra camada. Não por deficiência da verificação de identidade, mas por escopo: biometria, prova de vida e validação documental foram desenhadas para responder por uma pessoa. Intenção, porém, não é atributo de pessoa — é atributo de relação. Ela só se torna observável quando se analisa a estrutura em volta do cadastro. Essa análise é possível. Ela é apenas difícil, e mora em outro ponto da esteira.
Diversificação e maior complexidade
Os dados de entrada ajudam a localizar o problema; segundo o levantamento das soluções de prevenção à fraude da Serasa Experian divulgado em agosto de 2026, o setor financeiro brasileiro registrou 1.747.373 tentativas de fraude de identidade no primeiro semestre do ano. Esse número representa um crescimento de 9,5% sobre o mesmo período de 2025, o equivalente a uma investida a cada nove segundos em processos de entrada e cadastro de clientes.
Dois recortes desse número importam mais do que o total, sendo o primeiro deles o alvo. O segmento de meios de pagamento, composto por empresas que viabilizam aceitação e processamento (incluindo maquininhas e canais digitais), concentrou 1.219.793 tentativas de fraude. Isso representa uma alta de 11,9% entre os dois períodos, e corresponde a sete em cada dez ocorrências identificadas no setor financeiro.
O segundo recorte diz respeito ao valor, visto que o montante protegido pelas tecnologias antifraude quase dobrou em um ano, saltando de R$ 51,3 milhões para R$ 100,4 milhões. Como observou o diretor de autenticação e prevenção à fraude da Serasa Experian, Leandro Bartolassi, os números sugerem que os criminosos não estão apenas tentando mais vezes, mas também mirando oportunidades de retorno significativamente maior.
Como os meios de pagamento concentram o maior volume de tentativas de fraude já na fase de entrada — que, neste setor, significa o credenciamento de estabelecimentos e o cadastro de pessoas jurídicas —, a atenção deve se voltar para a análise dessas empresas. Afinal, a tecnologia de deepfake ainda não é capaz de forjar uma estrutura societária inteira.
A importância de vigiar o comportamento
Mesmo no cadastro de pessoa física, a camada de identidade possui um limite estrutural de escopo, pois responde apenas sobre um instante específico.
A entrevista da Neon descreve com clareza o que acontece fora desse instante, indicando que a conta laranja nasce idônea. O fraudador realiza o que o mercado chama de “esquentar”, efetuando pequenas movimentações que constroem um score favorável, semelhante a um cadastro positivo, para só então disparar o golpe. Consequentemente, o ponto de detecção não ocorre na abertura, mas sim no momento da virada.
A executiva defende a implementação de múltiplas camadas e a lógica de confiança zero, na qual cada etapa refaz o trabalho da anterior em vez de assumi-lo como concluído. Ela resume o ritmo dessa corrida em uma frase que serve como um verdadeiro diagnóstico de arquitetura, afirmando que “a vacina de seis meses atrás já não resolve porque a doença mudou”. Além disso, ela cita a nova versão do Mecanismo Especial de Devolução do Pix (MED 2.0) por sua capacidade de rastrear o dinheiro em múltiplos níveis e (a depender do resultado da análise) devolver valores de contas marcadas como de risco para a base compartilhada do sistema.
Embora tudo isso seja verdadeiro e necessário, descreve um regime de defesa que só funciona se houver elementos adicionais para observar além do indivíduo no momento do cadastro. Se a foto, o CPF e a pessoa são reais, a análise deixa de ser sobre autenticidade e passa a ser sobre coerência: o que o histórico dessa pessoa diz — processos judiciais, óbito registrado, exposição política, presença pública real — e o que a estrutura ao redor dela revela.
A complexidade das relações societárias
Atualmente, gerar um rosto convincente ou um documento coerente tem um custo praticamente nulo. No entanto, produzir um histórico de relações que resista ao cruzamento de dados continua sendo custoso em termos de tempo, coordenação e rastros deixados.
Uma empresa de fachada pode até apresentar um CNPJ ativo, um sócio real e um endereço válido, mas costuma carecer de coerência ao se analisar o seu entorno. Isso inclui situações como um mesmo endereço abrigando dezenas de CNPJs sem relação operacional, sócios figurando simultaneamente em estruturas incompatíveis, cadeias complexas de empresas que dissolvem a titularidade final, ou um capital social desproporcional à atividade declarada. Outros indícios envolvem um CNAE divergente da atuação real, aberturas de empresas concentradas em lotes temporais com o mesmo padrão, reaberturas logo após a baixa e a ausência de qualquer presença digital legítima (como domínios, mapas, reputação ou rastros públicos de operação).
Embora nenhum desses sinais prove a fraude de forma isolada e muitos possuam explicações lícitas, a verdadeira utilidade reside no cruzamento das informações. Quando um mesmo cadastro acende múltiplos alertas simultaneamente, não se trata apenas de uma suspeita sobre a pessoa, mas sim de uma anomalia clara na estrutura.
É justamente nesse terreno de análise que o VOID, módulo de enriquecimento da plataforma FraudGate , opera. A ferramenta cruza o grafo societário brasileiro de mais de 67 milhões de CNPJs com mais de trinta dimensões de análise sobre CNPJs e CPFs, abrangendo estrutura societária, listas restritivas e sanções (como CEIS, CNEP, CEPIM, lista suja, OFAC, ONU e PEP), além da coerência de cadastro, processos judiciais e presença digital. Dessa forma, cada dimensão devolve um sinal único que pode ser consumido diretamente pelo fluxo de decisão.
Dentro da plataforma, esse sinal não atua de forma isolada, pois o VOID enriquece os dados, enquanto o CORTEX orquestra a decisão transacional em tempo real utilizando regras e modelos de machine learning treinados com casos de fraude confirmada. Em paralelo, o AUTOPILOT raciocina sobre a fila operacional por meio de uma camada de agentes de IA que investiga, prioriza e resolve os casos rotineiros antes mesmo de chegarem ao analista. Toda essa arquitetura funciona como um SaaS gerenciado com integração via API, desenhada especificamente para auditorias sob o arcabouço normativo do BACEN, COAF e LGPD.
A lógica de composição se mostra mais importante do que qualquer módulo isolado, uma vez que a verificação de identidade revela quem está presente, a análise de estrutura desvenda o que está por trás, e a decisão transacional determina se a operação deve prosseguir naquele momento. Como se tratam de três perguntas distintas, a fraude atual explora precisamente as lacunas existentes entre elas.
A conexão de entidades na evolução do antifraude
Embora o deepfake seja um problema real e de camada, o mercado já tem direcionado investimentos intensos para mitigá-lo. Hoje, o risco maior reside em gastar toda a atenção tentando provar que a pessoa é quem diz ser (em um cenário onde ela quase sempre é genuína), e ficar sem recursos para outras análises.
Assim, quando a fraude deixa de falsificar identidades e passa a alugar perfis legítimos, o antifraude deixa de ser apenas uma questão de autenticação para se tornar, também, uma questão de relação entre entidades.
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Fontes
Finsiders Brasil — “Golpes e fraudes com IA elevam preocupação com identidade digital”, 13/08/2026. Entrevista com Fabiola Marchiori, CTO da Neon. https://finsidersbrasil.com.br/noticias-sobre-fintechs/golpes-e-fraudes-com-ia-elevam-preocupacao-com-identidade-digital/
Convergência Digital — “Meios de pagamentos lideram tentativas de fraudes no país”, 20/08/2026. Dados das soluções de prevenção à fraude da Serasa Experian. https://convergenciadigital.com.br/seguranca/meios-de-pagamentos-lideram-tentativas-de-fraudes-no-pais/


