Um golpe antigo com uma ferramenta nova
O “golpe do falso parente” e o “golpe do falso funcionário” existem há anos. O que mudou foi a qualidade do disfarce. Com ferramentas de inteligência artificial generativa, criminosos conseguem produzir áudios e vídeos que imitam a voz e o rosto de pessoas reais, os chamados deepfakes, e usá-los para dar credibilidade a um pedido de dinheiro.
Essas ferramentas já estão nas mãos de quem frauda. Um relatório que analisou tentativas de fraude em verificação de identidade, registrou alta de 126% nas fraudes com deepfakes e identidades sintéticas no Brasil em 2025. O país concentrou quase 39% dos deepfakes detectados na América Latina. O dado trata de fraudes de identidade, como a abertura de contas falsas, mas mostra o quanto a tecnologia amadureceu.
O problema é amplo. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, o Brasil registrou 2,26 milhões de ocorrências de estelionato em 2025, cerca de 258 por hora, alta de 3,1% sobre 2024. O levantamento associa esse crescimento à digitalização dos serviços financeiros, ao uso disseminado do Pix e à atuação de organizações criminosas cada vez mais estruturadas.
O Pix não é o vilão da história. Segundo dados do Banco Central compilados pelo O Povo+, as fraudes confirmadas representam cerca de 0,0067% das transações feitas pelo sistema. Ele é rápido, e é exatamente essa rapidez que o golpista tenta explorar antes que a vítima tenha tempo de pensar.
Como o golpe funciona, passo a passo
Alertas de bancos e de entidades como a OAB descrevem um roteiro bastante consistente:
Coleta de material. O criminoso reúne fotos, vídeos e áudios publicados pela própria vítima ou por seus familiares em redes sociais, além de informações de contexto: nomes, viagens, local de trabalho, processos judiciais.
Geração do conteúdo falso. Com ferramentas de IA, produz áudios com a voz clonada ou vídeos curtos com o rosto da pessoa imitada.
Contato inicial. A abordagem costuma começar por um número desconhecido, com a justificativa de que o parente “trocou de celular” ou está em uma situação de emergência.
Roteiro de urgência. Acidente, prisão, conta bloqueada, alvará judicial prestes a vencer, negócio que precisa ser fechado hoje. A pressa é proposital: ela tira da vítima o tempo de confirmar a história.
Pedido de Pix. O pagamento é solicitado para uma conta de terceiro, frequentemente uma conta de passagem usada para espalhar o dinheiro em seguida.
As variações mais comuns
Falso familiar. Um áudio ou vídeo com a voz de um filho, neto ou irmão pede ajuda para uma emergência. É a versão mais emocional do golpe. Costuma ser associada a pessoas mais velhas, mas os especialistas lembram que o alcance é bem mais amplo.
Falso advogado. Pessoas com processos em andamento recebem contato em nome do próprio advogado, com documentos falsos, pedindo um pagamento para “liberar” valores. Em 19 de maio de 2026, a Operação SP Advocacia Mais Segura, da Polícia Civil de São Paulo com a OAB-SP, levou à prisão de ao menos oito suspeitos. Segundo a OAB-SP, o grupo movimentou cerca de R$ 10 milhões em seis meses e, em alguns casos, usava tecnologia para reproduzir a voz real dos advogados. Ao menos 12 vítimas foram identificadas.
Falsa central do banco. O criminoso se passa por atendente, alega uma movimentação suspeita e pede uma transferência “de segurança”. O Itaú, por exemplo, reforça que nunca pede transferências, estornos ou pagamentos para resolver supostos problemas na conta, e orienta a desconfiar de contatos que peçam senhas ou códigos.
Celebridade em causa solidária. Vídeos sintéticos de pessoas famosas pedem doações para campanhas beneficentes falsas. O valor individual é baixo, mas a escala é grande. Em 28 de outubro de 2026, a Polícia Civil do DF prendeu cinco pessoas na Operação Cáritas, suspeitas de movimentar quase R$ 10 milhões com campanhas de doação falsas. Uma empresa ligada ao grupo recebeu mais de 215 mil transações em cerca de seis semanas, com doações de valores baixos, como R$ 30 ou R$ 50.
Executivo falso, dentro da empresa. É a versão corporativa e a de maior valor. No caso mais conhecido, revelado em 2024, um funcionário da Arup em Hong Kong participou de uma videochamada em que o CFO e outros colegas eram deepfakes. Ele fez 15 transferências, que somaram cerca de US$ 25 milhões, e só percebeu a fraude ao consultar a sede da empresa (Fortune).
Por que funciona
Um deepfake não precisa ser perfeito. Como resume o Olhar Digital, o que torna o golpe eficaz é o medo, não a tecnologia em si. Uma ligação curta, com ruído de fundo e uma voz parecida, é suficiente quando a pessoa do outro lado está assustada.
Em outras palavras: o deepfake ataca a confiança, e a urgência ataca a verificação. Quebrar qualquer um dos dois interrompe o golpe.
Sinais de alerta
Contato de número novo ou desconhecido dizendo ser alguém próximo.
Pedido de dinheiro com prazo imediato e apelo emocional forte.
Pedido para não contar a ninguém ou não ligar para outras pessoas.
Conta de destino em nome de terceiro, sem relação com quem pede.
Resistência a uma videochamada iniciada por você ou a responder perguntas que só a pessoa real saberia.
Em empresas: pedido de transferência fora do fluxo normal, “confidencial”, vindo de um executivo por um canal incomum.
Como se proteger
Para pessoas e famílias
Combine uma palavra ou pergunta de segurança com familiares, para ser usada em qualquer pedido de dinheiro fora do comum.
Desligue e ligue de volta para o número que você já tem salvo. Se fizer videochamada, seja você quem inicia.
Não decida sob pressão. Uma emergência real resiste a cinco minutos de verificação.
Revise o que está público nas suas redes: áudios, vídeos e detalhes de rotina servem de matéria-prima.
Use os recursos de segurança do seu banco, como limites de Pix e alertas de transações atípicas.
Para empresas
Defina que nenhuma transferência fora do padrão é aprovada apenas por voz, vídeo ou mensagem: sempre há uma confirmação por um segundo canal, já cadastrado.
Exija dupla aprovação para pagamentos acima de um valor definido e para inclusão de novos beneficiários.
Treine as equipes financeiras e de atendimento com casos reais, como o da Arup, mostrando o roteiro do golpe.
Crie um canal simples para que qualquer funcionário possa questionar um pedido “da diretoria” sem constrangimento.
Caí no golpe. E agora?
Acione o banco imediatamente pelos canais oficiais e peça a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED). Quanto antes, maior a chance de bloquear o valor nas contas de destino.
Registre um boletim de ocorrência, guardando prints, áudios, números e comprovantes.
Avise as pessoas próximas, porque a mesma voz ou imagem pode ser usada contra elas.
Desde 2 de fevereiro de 2026, a nova versão do mecanismo, o MED 2.0, é obrigatória para todas as instituições que oferecem Pix, com período de adequação até maio (Resolução BCB nº 493/2025). Com ele, o rastreamento do dinheiro deixou de se limitar à primeira conta que recebeu o Pix e passou a acompanhar as transferências seguintes. Os aplicativos também devem oferecer um botão para contestar a transação sem depender de atendimento humano.
O Banco Central ressalta que o Pix continua sendo um pagamento instantâneo e que a devolução se aplica a fraudes comprovadas. Ela também depende de haver saldo nas contas rastreadas, e esse é o principal obstáculo. Segundo os dados do BC compilados pelo O Povo+, só 8,9% do dinheiro perdido em golpes no Pix entre janeiro de 2022 e abril de 2026 foi devolvido, e a falta de saldo na conta do fraudador explica 61,7% do que não voltou. Por isso, a velocidade da comunicação faz diferença.
Conclusão
A inteligência artificial tornou mais fácil imitar quem conhecemos, mas não mudou a lógica do golpe: ele depende de confiança e pressa. Uma palavra combinada em família, uma ligação de volta e uma regra clara de dupla confirmação nas empresas continuam sendo as defesas mais eficazes. Do lado das instituições financeiras, a resposta passa por combinar tecnologia de detecção, análise comportamental das transações e cooperação entre bancos para rastrear o dinheiro rapidamente.
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